Reflexão sobre a desconexão entre mente e corpo na cultura do pensamento positivo
- Vânia Faustino
- 13 de abr.
- 5 min de leitura
O que acontece quando a falsa promessa de transformação rápida, a ilusão da energia positiva, chocam com a realidade humana, com a realidade emocional e com a realidade do sistema nervoso?
Tenho observado, cada vez mais à minha volta, pessoas que se sentem culpadas por não conseguirem pensar positivo e atrair coisas boas, como se houvesse algo de errado com elas. Na verdade, a falha está na abordagem que ignora a biologia do sentir.
Para além da ilusão do pensamento positivo
Vivemos numa cultura que promove o pensamento positivo, a energia elevada, as boas vibrações, e a ideia de que mudar a forma como pensamos é suficiente para transformar a nossa realidade. Essa promessa, apesar de apelativa, é muitas vezes uma ilusão, e, não raras vezes, um beco sem saída. Ainda assim, por ser tão amplamente alimentada e reforçada socialmente, essa ilusão pode persistir durante muito tempo, por vezes, uma vida inteira. Até porque o ser humano é particularmente hábil no auto-engano e, por força das circunstâncias, torna-se muitas vezes um mestre na arte da repressão, algo que estas abordagens acabam por reforçar ainda mais através do incentivo ao pensar para não sentir.
Eu acredito num trabalho que se foca na causa raiz e na regulação do sistema nervoso, e não na obsessão de pensar positivo e eliminar sintomas. Acredito que o que cada um sente tem valor e não deve ser abafado por tentativas de positividade forçada, ilusões reconfortantes, e construções mentais que distanciam da realidade e que evitam o contacto com a experiência real. A positividade surge quando tiver que surgir, quando houver espaço e de forma espontânea. Não se pode forçar positividade e alegria, tal como não se pode forçar o sentir, acreditar que sim é uma ilusão, pois o sentir não obedece a regras de controlo racional. Sustentar processos reais e profundos exige esforço, tempo e presença, e exige muito mais do que a aplicação de grelhas de pensamento ou padrões comportamentais pré-definidos.
Não existe cura rápida, não existe mesmo, e é preciso coragem para escolher o caminho que não é o mais fácil nem o mais imediato, mas que é o caminho que desmonta a ilusão - o caminho da realidade. Falar e pensar positivo não reprograma um sistema nervoso desregulado ou traumatizado. Sentir o que está presente, positivo ou negativo, é difícil, mas é real.
Estima-se que apenas uma pequena parte da nossa experiência seja consciente, portanto, tudo o que está fora dessa consciência, e que vive no corpo e no inconsciente, tem uma influência muito maior. A mente pode querer mudar, mas o corpo guarda memórias profundas que precisam de ser reconhecidas e integradas, por isso não se trata de um exercício intelectual, mas de uma integração biológica. Esse trabalho não é sobre boas ou más energias, nem sobre conceitos idealizados de equilíbrio ou “brilho”, é sobre realidade. É sobre biologia e neurociência. É sobre a capacidade de entrar em contacto íntimo connosco mesmos e com os outros. É sobre compreender que as marcas do passado e a desconexão interna impedem o prazer, a entrega e a presença profundas, tanto na relação comigo, como com o outro e com a vida.
O pensamento positivo poderá ter o seu lugar no bem-estar quotidiano, mas é insuficiente para reordenar um sistema nervoso que vive em estado de sobrevivência.
O corpo como lugar de memória e transformação
Onde a palavra não chega, o corpo recorda, por isso, o trabalho não se pode limitar a uma espécie de mentoria de soluções rápidas ou dicas superficiais. É necessário um processo que exige profundidade humana e rigor técnico, sabendo que o verdadeiro trabalho acontece no ponto de encontro entre corpo (biologia) e psique.
Focar somente nos sintomas não é suficiente, eles não são o verdadeiro problema, apenas são a resposta possível ao que foi vivido. Em vez de os tratarmos como algo a eliminar, é essencial compreender a arquitetura da dor que lhes dá origem.
As feridas, o trauma e a ansiedade vivem no corpo, não basta falar sobre as experiências nem seguir técnicas "passo-a-passo", é necessário envolver o corpo no processo, como o lugar do sentir, porque é através desse lugar que a libertação e a integração se tornam possíveis.
É preciso olhar para o ser humano de forma íntegra, e isso implica não excluir as dimensões menos convenientes, nós não somos apenas mente, desempenho, imagem, performance ou intelecto. Somos biologia, emoção, psique, e também dimensão relacional e existencial.
Num mundo que alimenta a fantasia de transformação imediata, torna-se essencial criar espaços que sejam simultaneamente seguros e tecnicamente fundamentados, porque é no encontro com a verdade — e não com a ilusão — que a mudança sustentada pode acontecer.
Primeiro o corpo, depois o sentido
O corpo sente antes da mente pensar.
A integração de feridas ou traumas é, em essência, um regresso à integridade — ao “eu mais eu”. Esse processo acontece através da fisiologia, da relação e da exploração da história pessoal.
Incluir a fisiologia é extremamente importante, porque o sistema nervoso não responde a narrativas racionais ou morais. Ele responde a pistas de segurança, por isso, a regulação vem antes da análise. Primeiro, o corpo precisa de sentir segurança, só depois o sentido emerge, muitas vezes de forma espontânea e sem necessidade de excessiva intelectualização. Não é sobre convencer a mente a estar bem, mas sim sobre trabalhar para dar segurança ao sistema nervoso.
Quando o corpo está regulado, a compreensão torna-se mais fluída e orgânica, não precisa de ser forçada. Tudo fica mais claro, porque o corpo sente antes da mente entender.
A relação como base da transformação
Não são as técnicas que permitem a reparação.
Hoje existem várias abordagens terapêuticas, como a EMDR, entre outras, que são ferramentas importantes, mas nenhuma técnica substitui a relação terapêutica.
A mudança só pode acontecer num processo relacional, consistente e, muitas vezes, lento. Até porque se foi na relação que algo se desorganizou, é também na relação que a reparação se torna possível.
A psicoterapia não é um conjunto de intervenções aplicadas, é uma experiência vivida, que precisa de tempo, segurança e integração. E sendo a segurança a base de qualquer experiência emocional positiva, é importante que a relação terapêutica seja esse espaço de segurança, pois sem ela não há verdadeira alegria, confiança ou calma.
A experiência, não a ideia
Falar de segurança não é o mesmo que senti-la, tal como falar de água quente não é o mesmo que mergulhar nela. As marcas do tempo, as feridas e o trauma vivem no corpo, e o corpo precisa de se tornar um lugar seguro para que a presença seja possível, e isso não acontece através de conceitos, mas através de experiência direta. É preciso sentir, viver essa segurança.
Também é preciso sentir o que não foi possível lá atrás. As emoções são fisiológicas, são energia em movimento, e, quando são reprimidas, essa energia fica estagnada e manifesta-se em sintomas, por isso, é necessário sentir aquilo que ficou congelado. É preciso integrar o que ficou perdido, resgatar o que foi fragmentado. É preciso permitir que aquilo que foi interrompido possa finalmente completar-se num contexto de segurança e conexão. A segurança é a almofada que permite arriscar sentir o que até então não era possível. A segurança permite desmoronar para reconstruir.
Nenhum sistema humano funciona, se fere ou se sana isoladamente. Somos biologicamente orientados para a co-regulação, a segurança não é uma tarefa solitária. Isto não é sobre tratar apenas ideias, é sobre tratar a vida como ela se manifesta no organismo de cada um.
Vânia Faustino