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Vânia Faustino | Psicóloga & Psicoterapeuta  

Vânia Faustino | Psicóloga & Psicoterapeuta

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Elogio do Desacelerar: Uma Ode Contemporânea à Slow Psychology (e Slow Psychotherapy)

Foto do escritor: Vânia Faustino
Vânia Faustino
há 11 minutos
5 min de leitura

Vivemos na era do instantâneo, onde a eficácia é medida pela velocidade e o valor humano pela produtividade. Exige-se que a mente acompanhe o ritmo frenético dos algoritmos, que as respostas sejam imediatas e que as feridas emocionais se curem com a pressa de um clique. Neste cenário de urgência crónica, a Slow Psychology (termo não oficial, mas que gosto de usar) surge não como um retrocesso, mas como um acto de profunda coragem e lucidez, uma tentativa de revolução para devolver ao ser humano o seu tempo natural.


O processamento psicoemocional não é uma corrida, é um processo de maturação, e contra a ilusão das soluções rápidas e das fórmulas mágicas de bem-estar em dez passos, este manifesto celebra o direito de "ir devagar". Celebrar a lentidão é reconhecer que o auto-conhecimento exige silêncio, que a integração do trauma pede espaço e que a verdadeira transformação precisa de raízes profundas, invisíveis à superfície imediata do quotidiano. O ser humano não é uma máquina que precisa de ser optimizada, é um ecossistema que precisa de tempo para florescer.


Presto aqui uma homenagem aos terapeutas que sustentam o silêncio sem pressa de o preencher, e aos clientes que aceitam caminhar ao seu próprio ritmo, honrando os seus invernos interiores. Que saibamos desacelerar a pressa de diagnosticar, a urgência de resolver e a obsessão de corrigir. Porque a vida e a psique não se resolvem no imediatismo, compreendem-se, acolhem-se e transformam-se, devagar.



Apesar de não ser um termo oficialmente cunhado pela psicologia académica tradicional, a Slow Psychology representa uma abordagem terapêutica que prioriza o ritmo natural, biológico e subjectivo de cada pessoa para processar e integrar as suas experiências. Move-se, assim, em oposição às abordagens rápidas, muitas vezes focadas somente na mitigação imediata e no controlo superficial de sintomas. Esta é, sem dúvida, a abordagem que me faz mais sentido.


Na psicoterapia profunda e enraizada na realidade, slow is fast. Em vez de um foco em soluções rápidas de curto prazo para crises de ansiedade, burnout ou outros quadros, para mim o conceito de Slow Psychology vem relembrar da necessidade de haver mais paciência no processo. Paciência da parte do terapeuta e paciência da parte do cliente. Isso abre espaço para um processo muito mais humano e de maior afectação, no qual o terapeuta se dá permissão para se deixar afectar pelo seu cliente, e onde o objetivo é co-construir um espaço de segurança para o cliente poder digerir emoções complexas e traumas de forma compassiva, sem a pressão de alcançar metas rígidas de produtividade pessoal. Aqui não há pressa de “curar” ou de ver o outro feliz, mas sim de o acompanhar exactamente como ele está a cada momento. Não significa que não exista o desejo de ver o outro prosperar, claro que ele existe, mas prescinde-se da exigência de que isso aconteça noutro ritmo que não o natural de cada organismo.

Portanto, a Slow Psychology (ou Slow Psychotherapy) exige um reprocessamento natural e uma integração gradual, onde é fundamental valorizar o tempo que o sistema nervoso necessita para captar nuances, contextos e pesos emocionais, que é o que vai permitir ao indivíduo distanciar-se de reacções automáticas e impulsivas.


A Slow Psychology encontra reforço na neurociência que tem vindo a demonstrar que o desacelerar é extremamente benéfico no reprocessamento psicoemocional, pois é na lentidão que a activação parassimpática saudável pode finalmente surgir. Viver em constante aceleração hiperestimula a amígdala, o que perpetua o stress crónico e eleva os níveis de cortisol. Em contrapartida, a pausa consciente activa o ramo parassimpático, restaurando as funções do córtex pré-frontal e diminuindo os sinais de alerta no corpo.


Uma abordagem Slow Psychology relembra-nos a importância de dar tempo às "reflexões sentidas", que promovem uma união genuína entre a mente e o corpo (o lugar do sentir). O ser humano precisa e merece tempo para não só contar a sua história, mas senti-la, e é no abrandar que conseguimos finalmente notar o verdadeiro peso daquilo que vivemos e quem sabe, criar espaço para sair do piloto automático. É no espaço da pausa e no respeito pelo ritmo orgânico que uma abordagem Slow Psychology oferece o progresso suave de uma psicologia lenta. Respeitar a lentidão destes processos humanos é devolver a dignidade ao ser humano, é reconhecer que ele não é uma máquina, e que os seus desafios e imperfeições merecem um olhar atento e amoroso. É preciso reforçar a importância de uma abordagem clínica minuciosa que faça contraste com as pressões da sociedade actual, acelerada, mecanizada e focada na eficácia imediata. É necessário impedir que a psicoterapia se transforme numa versão psicológica da cultura da produtividade. A história de vida de cada um não é para ser resolvida, é para ser acolhida e integrada. A história de vida de cada um não é para ser abafada, ignorada e reprimida, é para ser honrada. O passado não pode ser só o passado enquanto não for integrado dentro da biografa interna de cada um. Não há técnica ou racionalização que consiga mudar o que está congelado na memória, no corpo. Tal como o gelo precisa de calor para descongelar, também aquilo que ficou suspenso na experiência humana precisa de tempo e calor, segurança e contacto, para que se possa mover. Nem o gelo nem o ser humano descongela porque lhe dizemos "imagina-te descongelado".


Li algures que, em tempos, a psicologia foi criticada pela lentidão do seu progresso científico, principalmente as abordagens cuja base empírica não assentava no modelo contemporâneo de ensaios clínicos, protocolos manualizados e resultados mensuráveis. Mas talvez hoje possamos olhar para essa mesma característica sob uma outra perspectiva, não como uma falha a corrigir, mas como algo bom, como uma possibilidade a resgatar. É um pouco como aquelas coisas vintage que um dia deixámos para trás por parecerem ultrapassadas e que, anos depois, recuperamos precisamente porque percebemos que tinham algo que as novidades não conseguiram substituir. Talvez a lentidão da psicologia possa ser uma dessas coisas, algo que outrora pareceu uma limitação e que hoje podemos reconhecer como uma qualidade. Talvez possamos transformar a lentidão numa apologia ao respeito pelo tempo da mente humana. Numa época obcecada pela velocidade, talvez aquilo que outrora foi visto como lentidão possa ser precisamente aquilo de que mais precisamos. E nesta era de promessas vazias de bem-estar, de dicas passo a passo, de "técnicas 1, 2, 3" e de respostas ultra rápidas (mas resultados pouco duradouros), é preciso reforçar que nada disso substitui a profundidade, o tempo e o vínculo de que o ser humano necessita. O foco na pressa para resolver precisa, urgentemente, de ser deslocado para dar lugar a mais tempo para compreender, mais tempo para sentir e mais tempo para ser. Talvez precisemos de reaprender a distinguir o desejo de ser feliz do desejo de ser produtivo, eficaz e permanentemente "melhor". Porque uma vida não se torna mais plena por ser mais eficiente.



Vânia Faustino

 
 

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